Em 1984 os estudantes das universidades públicas portuguesas eram surpreendidos com o aumento das refeições nas cantinas. De vinte e sete e quinhentos para cinquenta e dois escudos. Marcaram-se greves, fizeram-se RGA's dia-sim-dia-sim, escreveram-se cadernos de reivindicações, picharam-se paredes, organizaram-se manifestações, exigiu-se em voz alta a demissão do ministro Seabra.
Queixaram-se os estudantes da Universidade do Minho que a sua voz dificilmente se faria ouvir junto da opinião pública. Para o comum cidadão os estudantes eram apenas uns fedelhos mal comportados, que pintavam paredes às escondidas da noite encharcados em álcool, que em alguns lugares tomavam de assalto as cantinas universitárias e afrontavam o poder e a ordem por dá cá aquela palha.
Numa das Reuniões Gerais de Alunos – e foram logo quatro ou cinco de seguida– um grupo de alunos apresentou a proposta de criação de uma rádio universitária de modo a dar voz aos alunos e às suas reivindicações. Chamaram ao projecto Centro Experimental de Rádio Universitária e visava numa primeira fase as emissões radiodifundidas e numa segunda fase, teledifundidas. Projectos pouco ambiciosos, portanto. Foi em 20 de Novembro de 1984, João de Deus Pinheiro, na altura Reitor da UM, perante a grandiosidade do projecto, abriu os cordões à bolsa: vinte e cinco contos.
A primeira emissão, na verdadeira acepção da palavra, aconteceu em 11 de Dezembro de 1984, e os cartazes anunciavam que poderiam ser seguidas por todos os radiouvintes interessados, nos 103 ou 104 MHz – mais ou menos, por aí, a partir das, mais ou menos, 22 horas. O emissor artesanal não era seguro, e rapidamente se verificou que era necessário investir um pouco mais – faltava tudo nos faz-deconta- que-são-estúdios.
Em Maio de 1985, João de Deus Pinheiro atribuía ao Centro Experimental de Rádio Universitária um subsídio de 180 contos para que se pudesse fazer a cobertura da Queima das Fitas. O emissor, ao fim do primeiro dia de emissões, adoeceu. Era pedir demais a um emissor praticamente artesanal. Depois da Queima, reparado o emissor e conhecendo-lhe melhor as manhas, as transmissões passaram a ser feitas só à hora da telenovela do segundo canal de televisão. Para azar dos espectadores fiéis das telenovelas, a emissão da Rádio Universitária entrava na emissão do segundo canal como faca quente em manteiga.
Era a tentação do audiovisual. Os telespectadores que não queriam perder a escrava Isaura, iam para outras televisões, longe da acção do emissor universitário. Mas como um azar nunca vem só, os rádios dos carros patrulha da PSP captavam melhor as emissões da Rádio Universitária que as mensagens e ordens do comando.
Para grandes males grandes remédios. Fez-se um peditório. Rendeu mais ou menos três contos. O emissor continuou com problemas, mas as consciências ficaram descansadas. Às vezes havia Rádio Universitária... outras vezes não.
Em 1989 o governo mandou silenciar as chamadas rádio livres (ou piratas, como também eram conhecidas) e abriu um concurso público. A Rádio Universitária do Minho foi a primeira a emitir, depois de atribuído o alvará, no dia 10 de Julho de 1989.
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